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Dia das Mulheres e Meninas na Ciência assinala protagonismo e inspira pesquisadoras

Por muito tempo a presença feminina na ciência foi praticamente invisível. Hoje é expressiva, inclusive em espaços importantes de diferentes áreas. As conquistas merecem ser celebradas – o impacto social das descobertas e criações lideradas pelas mulheres inegavelmente faz diferença no mundo. O Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado neste dia 11 de fevereiro, vem trazer visibilidade ao papel feminino no segmento, motivar a diversidade de gênero nas pesquisas e inspirar novas gerações de meninas e mulheres.

Em paralelo aos avanços, a data também reforça a necessidade de enfrentamento ao machismo estrutural e de estímulo a condições para que a pluralidade de olhares e vivências seja expressada na produção científica.

Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), 48% dos projetos com ênfase em pesquisa são coordenados por mulheres – são 658 liderados por elas. As mulheres respondem por 57% das bolsas de pós-graduação na instituição (2.748 pesquisadoras). Nas bolsas de graduação, elas são 60% (417 mulheres). Entre as mais jovens, a expressão é ainda mais evidente: as meninas são 65% das bolsistas de pesquisa de Ensino Médio – iniciativa da UFPel que tem a proposta de despertar a vocação científica e incentivar novos talentos para a pesquisa. São 13 jovens pesquisadoras dentre as 20 pessoas bolsistas.

A coordenadora de Pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPel, professora Márcia Foster Mesko, avalia que o panorama evidencia o interesse das mulheres e meninas na ciência na instituição. Apesar do número maior de homens coordenando projetos em relação a mulheres, o volume de trabalhos liderados por elas é significativo, aponta. Segundo a gestora, políticas institucionalizadas de ingresso e permanência para docentes e estudantes, além de critérios de avaliação que ponderam aspectos como licença-maternidade, por exemplo, são avanços que deverão refletir em uma maior equalização ao longo dos anos.

O fomento, segundo ela, é um dos grandes desafios ainda existentes para estimular o engajamento feminino na ciência. Mais investimento em ciência e tecnologia representa maior possibilidade de as mulheres conseguirem coordenar projetos maiores, inclusive em rede, e estabelecerem cooperação científica dentro e fora do país. “As mulheres conseguirem coordenar e angariar recursos para seus projetos ainda é uma das dificuldades que vemos ao olhar os resultados de editais no país. É um panorama em que esperamos uma crescente, porque potencial a gente está vendo que tem”, disse.

Coordenadora de Pesquisa da UFPel, professora Márcia Foster Mesko

Para a coordenadora, o viés cultural na divisão dos trabalhos e do cuidado, que costuma estar a cargo da mulher, também precisa ser repensado para que haja avanço em termos de espaço na ciência e na sociedade. “É preciso que se faça todo um trabalho de base que começa nas escolas, nas famílias, para que se consiga ter um avanço significativo e, com certeza, com mais políticas públicas”, salienta a gestora, que também coordena um projeto em rede nacional para meninas e mulheres nas ciências exatas, especialmente na área da química.

Destaque feminino na Ciência Aberta
Formada em Biotecnologia pela UFPel, Eduarda Centeno é atualmente co-diretora executiva da Rede Brasileira de Reprodutibilidade (RBR), órgão que tem como missão reunir pesquisadores e outros atores do sistema científico brasileiro para fomentar o debate sobre reprodutibilidade em pesquisa. A rede propõe treinamento, projetos de metaciência e ativismo junto a instituições e órgãos governamentais para promover práticas de pesquisa transparentes e reprodutíveis.

Atuando com foco em desenvolvimento de comunidade e articulação política, a mestre e doutora em Neurociências trabalha para disseminar valores e práticas de ciência aberta e reprodutível em todo o Brasil. A egressa da UFPel coordena o Programa de Embaixadores — que seleciona cerca de 20 pessoas por ano para representar a Rede em suas comunidades locais — e gerir os mais de 100 membros, que vão de estudantes de graduação a professores sênior, além de sociedades e periódicos científicos. Esse trabalho também se conecta diretamente à esfera política, articulando com atores nacionais e internacionais do movimento de ciência aberta.

Eduarda Centeno, co-diretora executiva da Rede Brasileira de Reprodutibilidade (RBR) e egressa da UFPel

A cientista conta que sua trajetória começou no primeiro semestre do curso de Biotecnologia da UFPel, que já tinha um forte foco em pesquisa científica. A oportunidade de se envolver em atividades de laboratório despertou seu interesse pela produção de ciência desde cedo. O primeiro estágio, na Faculdade de Odontologia, possibilitou o trabalho com células-tronco de polpa dental. Ao longo do curso, Eduarda teve diversas oportunidades de aprender técnicas laboratoriais e participar de projetos de pesquisa, o que lhe permitiu construir uma visão cada vez mais clara sobre os caminhos que gostaria — e também os que não gostaria — de seguir na ciência. “Essa vivência prática foi essencial para me dar segurança na escolha dos próximos passos”, lembra.

Além do aprendizado no curso de Biotecnologia, teve a chance de estagiar já no primeiro semestre, apresentar trabalhos em eventos de iniciação científica e participar de congressos. Um passo marcante, conta, foi ter participado do programa Ciência Sem Fronteiras, na University of Reading, no Reino Unido, que ampliou suas perspectivas de carreira. Ao retornar ao Brasil, realizou seu trabalho de conclusão de curso na Universidade Federal de Santa Catarina e, em seguida, foi selecionada para o programa NEURASMUS — uma dupla diplomação com bolsa entre França e Holanda em Neurociências. Posteriormente, concluiu o doutorado em Neurociências na Université de Bordeaux, na França, defendido no final de 2024. Hoje, transicionou sua trajetória para a direção da RBR. “Toda essa jornada começou com as primeiras oportunidades profissionais que tive na UFPel. A UFPel foi determinante na minha formação”, destaca.

Segundo Eduarda, estudar em uma universidade federal teve um papel essencial não apenas em sua formação acadêmica, mas também pessoal. “O acesso ao ensino superior público reúne pessoas de diferentes realidades sociais, e esse convívio foi extremamente enriquecedor. As amizades que construí nesse período permanecem até hoje e são parte fundamental de quem sou”.

Protagonismo
Para a co-diretora da RBR, os avanços na participação feminina na ciência são muitos – e se refletem na presença expressiva em diversas áreas, inclusive na Neurociência, sua área de formação. No entanto, aponta, esse progresso ainda não se reflete plenamente nos níveis de senioridade, onde homens (cis brancos) continuam predominando. Além disso, em diversos contextos, mulheres ainda recebem salários menores mesmo em cargos equivalentes. “A diversidade é essencial para enriquecer o ambiente acadêmico e a produção científica. Grupos diversos estimulam criatividade, ampliam objetivos e, na biomedicina, tornam resultados mais generalizáveis e terapias mais eficazes”, destaca. Por isso, segundo ela, é preciso observar não apenas o viés de gênero, mas também as questões de raça, etnia e orientação sexual. “Já caminhamos bastante, mas os desafios ligados ao machismo estrutural e às desigualdades interseccionais ainda exigem enfrentamento. O futuro da ciência depende de um espaço mais seguro, inclusivo e igualitário para todas as pessoas”.

Acreditar em si mesma e cultivar uma rede de apoio — pessoas próximas que a fortaleçam nos dias mais difíceis – são conselhos que a cientista daria para uma mulher que tenha vontade de trabalhar com ciência. Segundo ela, também é importante ter atenção aos ambientes profissionais. Buscar informações sobre o time, o supervisor e os valores da instituição pode fazer toda a diferença na experiência de trabalho e na motivação para seguir na carreira científica. “Estar em um espaço seguro e alinhado com seus princípios é fundamental para crescer e se manter na ciência”.

Professora Anelise Montagner, coordenadora da Comunidade de Ciência Aberta Pelotas

Ciência Aberta na UFPel
Além de ter uma egressa em um posto de destaque na ciência aberta no Brasil, a UFPel também é articuladora da Comunidade de Ciência Aberta Pelotas (OSCP), que tem a proposta de construir uma comunidade acadêmica colaborativa dedicada a incentivar, promover e capacitar seus membros para a adoção de práticas de Ciência Aberta. Seu objetivo é fortalecer a transparência, a colaboração e a reprodutibilidade do conhecimento científico, abrangendo todas as etapas do processo de produção da ciência.

A OSCP integra a International Network of Open Science & Scholarship Communities, uma rede internacional que reúne comunidades de ciência aberta vinculadas a instituições de diversos países. Trata-se da primeira comunidade de ciência aberta no Brasil, o que reforça o compromisso com a consolidação desta iniciativa sólida em Pelotas.

Criada em 2025, a OSCP pretende atuar por meio de ações de formação, eventos e articulação entre seus membros. A comunidade tem como princípio a diversidade e a inclusão: podem participar estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadoras(es), docentes e técnicas(os)-administrativos(as) de diferentes áreas do conhecimento, disciplinas e instituições de ensino e pesquisa.

Embora a articulação coletiva ainda esteja em processo de consolidação, a UFPel desempenha um papel central nessa trajetória, tanto pelo apoio institucional, por meio da PRPPG, quanto pela participação ativa de docentes, pesquisadoras, pesquisadores e estudantes, que compõem a maioria dos membros da OSCP. Embora tenha surgido a partir da UFPel, a iniciativa é aberta e já envolve membros de outras instituições.

De acordo com a coordenadora da Comunidade de Ciência Aberta Pelotas e docente da Faculdade de Odontologia da UFPel, professora Anelise Montagner, a Ciência Aberta surge como uma resposta a diversos limites e distorções do modelo científico tradicional, propondo um caminho mais inclusivo, colaborativo, transparente e acessível. E nesse contexto, destaca, a presença e o protagonismo das mulheres cientistas são importantes, uma vez que a Ciência Aberta também se configura como uma agenda de justiça social. “Ela possibilita questionar desigualdades históricas, ampliar vozes, valorizar diferentes saberes e contribuir para uma ciência mais diversa, equitativa e conectada com os desafios sociais contemporâneos”.