A experiência de gestoras acadêmicas negras diante do racismo estrutural é compartilhada na 11ª Siiepe
A gestão do Ensino Superior brasileiro ainda traz marcas de raça e de gênero. O ambiente, predominantemente de homens brancos, apresenta desafios para o exercício da liderança universitária por mulheres negras, com reflexos sobre a sua saúde mental. Esse é o tema da pesquisa de doutoramento da pró-reitora de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Cássia Virgínia Maciel, apresentada na 11ª Semana Integrada de Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão (Siiepe) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A fala da gestora, durante a programação de quarta-feira (22) no Pelotas Parque Tecnológico, também expôs ao público, em conjunto os resultados parciais do estudo, a sua própria experiência, como mulher negra em posição de poder, de enfrentamento ao racismo estrutural, isto é, o preconceito “naturalizado” na sociedade.
A tese em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e do Trabalho e das Organizações da Universidade de São Paulo (USP) problematiza a necessidade generalizada de inclusão da diversidade nos espaços decisórios de gestão acadêmica. Das informações coletadas pela pesquisadora em 36 universidades federais de março a dezembro de 2023, sete ocupantes do cargo de reitora ou reitor declararam-se pessoas negras ou amarelas. Desse universo, mais que o dobro eram homens. Em relação às demais representações da administração central das Instituições, como pró-reitorias e superintendências, a composição identificada mostrou-se também com maior expressão de pessoas brancas: 217, em contraste com 101 negras, indígenas ou amarelas.
Para Cássia Virgínia, a ascensão de mulheres negras para cargos de alta gestão no contexto acadêmico é, de antemão, vista como imerecida. “As identidades das mulheres negras gestoras vão sendo construídas por meio de uma negativa. A Cássia está lá porque é negra. Ela entende nada de administração pública, governança, liderança”, exemplifica, ao relatar a sua própria vivência diante do preconceito.
Inferiorização e idealização
Entre as reflexões levantadas, a palestrante abordou a luta social pelo reconhecimento de sua identidade e os desafios à saúde mental das gestoras, com base nos dados obtidos em entrevistas. O caso apresentado, de uma mulher negra responsável por unidade acadêmica da área da saúde e por programa de pós-graduação reconhecido pela excelência internacional, revela situação de excesso de trabalho, diagnosticada como síndrome do esgotamento profissional, em consequência do estresse crônico naquele ambiente.
No contexto em análise, para marcar a sua competência diante do racismo como mulher negra gestora acadêmica, a dedicação da entrevistada à sua Universidade, conta Cássia Virgínia, ultrapassou os limites do saudável. “Ela acha que tem fazer mais do que todo mundo fazendo, ao trabalhar de manhã, tarde, noite e de madrugada”, relata. A sua percepção era de que precisava “entregar mais do que estava entregando”, como se o esforço fosse insuficiente, apesar do reconhecimento máximo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação pública, vinculada ao Ministério da Educação (MEC), responsável por fiscalizar, avaliar e financiar os programas de pós-graduação do País.
A palestrante sugere que a situação apresentada não se trata da “síndrome da impostora”, quando a pessoa põe em dúvida recorrentemente a sua competência e conhecimentos para o exercício de suas atividades, como se fosse “uma farsa”, apesar de seu histórico de realizações. Diferentemente, Cássia Virgínia entende o problema como uma “síndrome social da postura racista”.
Desde a infância, explica, mulheres negras são posicionadas como inferiores, em decorrência do racismo. “Nós nos constituímos a partir do olhar do outro”, explica, ao abordar os processos se formação da identidade. Como consequência, a forma como a sociedade define e posiciona socialmente as mulheres negra provoca mecanismos de defesa e compensação, em razão do prejuízo à autopercepção.
Para explicar esse fenômeno, entre outras perspectivas teóricas, a pesquisadora adota o pensamento do psiquiatra e filósofo Franz Fanon (em “Pele negra, máscaras brancas”): a vivência das pessoas negras é moldada pelo olhar dominante, do branco, que transforma em objeto e nega a humanidade. O resultado, em razão de sua rejeição na sociedade, é a internalização do “ser inferior” e a idealização dos corpos brancos.
Programação
A 11ª Siiepe também trouxe reflexões relacionadas ao racismo no contexto acadêmico na palestra de terça-feira (22). Katiúscia Ribeiro denunciou o “assassinato de outras formas de produção do conhecimento”, saberes e existências milenares, em sua defesa de uma Universidade e uma sociedade realmente inclusivas.
Na noite de quinta-feira (23), a partir das 19h, também no Pelotas Parque Tecnológico (avenida Domingos de Almeida, 1755), será a vez da competição de divulgação científica “Sua Tese em Três Minutos“. Em busca da aproximação da Ciência com a sociedade, os resultados de teses de doutorado em desenvolvimento na UFPel serão apresentados, didaticamente, para um público não familiarizado com a linguagem científica.
