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UFPel apresentou uma outra Pelotas no Dia do Patrimônio

Ao pensar no Patrimônio de Pelotas, logo vem as lembranças dos casarões, dos doces e das charqueadas, mas para além desta imagem da cidade que é disseminada para a população e para o restante do país, existe uma outra Pelotas, um patrimônio que, apesar de ser invisibilizado, teve e tem muita importância para o desenvolvimento da cidade. Foi para mostrar estes outros aspectos da cidade que o Grupo de Estudos Etnográficos Urbanos da Universidade Federal de Pelotas realizou a exposição “Patrimônios Invisibilizados: para além dos casarões, quindins e charqueadas”, na Bibliotheca Pública de Pelotas entre os dias 16 e 18 de agosto, dentro das atividades do Dia do Patrimônio.

O grupo estuda, dentro do projeto “Margens: grupos em processo de exclusão e suas formas de habitar Pelotas”, o patrimônio que não é mostrado nos relatos oficiais, são grupos que habitam e constroem Pelotas, mas que vivem à margem da cidade. A coordenadora do projeto, professora Louise Alfonso, explica que os grupos pesquisados são invisibilizados em suas crenças, em suas formas de viver e, também, em seus locais de moradia. O projeto conta com diversas pesquisas que analisam desde trabalhadoras domésticas, população fronteiriça, religiões de matriz africana, grupos LGBTQI+ até a comunidade do Passo dos Negros, que fica nas margens do São Gonçalo, local que está sendo diretamente afetado pelos grandes empreendimentos e condomínios. “São estas outras narrativas que queremos valorizar, porque quando apenas se conta as histórias dos grandes casarões, daquelas famílias, se exclui a história de muita gente”, atenta a professora.

A estudante de antropologia que atua no projeto, Martha Ferreira, explica que o conceito de margem utilizado no projeto não é relativo a algo excluído, afastado e colocado de lado. “É uma margem fluida e que é construída no dia a dia. O centro da cidade é utilizado de uma forma durante o dia, mas durante a noite é habitado de forma diferente, por travestis e motoristas de aplicativo, por exemplo”, explica. No mesmo sentido, a estudante de antropologia, Camila Machado, atenta para os diversos usos do Mercado Público. “É um local de passeio, de lazer, de comércio, mas também é um lugar central para os cultos das religiões de origem africana. Desta forma, o centro acaba virando margem e a margem acaba virando centro”, exemplifica.

O projeto participa das atividades do Dia do Patrimônio desde 2016 apresentando esta outra perspectiva de patrimônio, um patrimônio que não é valorizado e publicizado, mas que é um patrimônio presente no dia a dia da população.

Projeto Terra de Santo

O projeto surgiu em 2016 a partir do pedido que o grupo recebeu para ajudar a patrimonializar uma terreira de Pelotas. No início de 2019, um dossiê foi entregue ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que a terreira possa virar patrimônio. Contudo, os estudos vão além, de acordo com a professora Louise são mais de 2 mil casas de religião de matriz africana em Pelotas que farão parte da pesquisa através de um mapeamento que está sendo realizado. “Estas religiões tem peculiaridades no Rio Grande do Sul, são diferentes de outros estados e os estudos atravessam outros que são realizados pelo grupo, são pessoas LGBT’s e empregadas domésticas que participam das religiões e até mesmo a tradição doceira também está inserida neste contexto, são muitas festas realizadas e a presença do doce como oferenda também é analisada. O quindim é uma oferenda de Oxum, em cada festa se compra ou se produz centenas deste doce”, explica. A exposição apresentou temperos, plantas e itens que são utilizados nas casas de religião além das histórias e dos locais de Pelotas que são importantes nos cultos, mostrando a relação da religião com a cidade.

Projeto Mapeando a noite

O trabalho apresentado na exposição busca as narrativas das comunidades LGBTQI+ para analisar o as relações que estes grupos têm com a cidade, as formas de viver, as violências sofridas e as oportunidades de trabalho, por exemplo. Também abrange a Pelotas noturna que, de acordo com Louise, é uma Pelotas bem diferente, não só das travestis, das festas, das trabalhadoras sexuais, mas também dos taxistas, dos motoristas de aplicativo, das enfermeiras e outros profissionais que trabalham no período noturno.

Entre as atividades do projeto está o apoio à programas de rádio e à parada LGBTQI+, além de trabalhos realizados diretamente com esta comunidade, como atividades com pessoas trans em processo de transição, além de intersecções com os demais projetos como a presença das pessoas LGBTQI+ nas religiões de matriz africana.

Projeto Passo dos Negros

O Passo dos Negros, localizado atrás do Shopping Pelotas, foi uma região muito importante para a cidade, foi o primeiro Porto, com muito movimento, consolidado como um lugar de comércio, de taxação das mercadorias que chegavam à cidade por ali, sendo parte das “mercadorias” composta por pessoas escravizadas. O local recebeu antigas charqueadas e o maior Engenho da América Latina. Um dos acessos é o Caminho das Tropas.

Louise explica que o local é habitado por gerações de moradores relacionados ao Engenho, Peixarias e Leitarias, por exemplo. “A nossa ideia inicial era entender aquela região como uma região de descendentes de pessoas escravizadas, essa compreensão do passado nos ajuda a entender as dinâmicas do presente, como relações de vizinhança, relações de conflito e as disputas de narrativas”, explica.

Os empreendimentos que estão sendo construídos na região transformam o cotidiano dos habitantes, muros são construídos para separar a elite da comunidade que vive ali, sítios arqueológicos são desconsiderados, vias históricas são asfaltadas, moradores são ameaçados de remoção do local e, além disso, tubulações passam a arremessar água para essa região, tornando-a ainda mais alagadiça. A região também possui a Ponte dos dois arcos, construída por escravizados e figueiras que são de grande importância para as religiões de matriz africana.

Dentre as narrativas, a noiva da figueira que assombra as pessoas que passam à noite e o negrinho do Engenho que é o Mascote do time de futebol local: Osório Futebol Clube.

O trabalho do grupo pode ser acompanhado pela página https://www.facebook.com/geeurbano/.

Publicado em 30/08/2019, em Notícias.