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Universidade Mais Humana: AIDS e DSTs

Facebook (1)A Universidade Federal de Pelotas está cada vez mais caminhando em direção à valorização da vida. Nesta série de matérias de boas-vindas ao ano letivo, serão apresentadas práticas, histórias de vida e maneiras de colaborar para que tenhamos cada vez mais uma instituição de ensino superior comprometida com a vida e mais humana.

São abordados temas como racismo, homofobia, xenofobia, violência contra a mulher, AIDS e Doenças Sexualmente Transmissíveis, Alcoolismo e Drogas, Solidariedade, Cuidado com os Animais, Desperdício, Trote Solidário e Sustentabilidade.

São os estudantes, os professores e os servidores que fazem a UFPel ser o que ela é – e tornar-se tudo o que pode ser. Ao acolher sua comunidade acadêmica, a Universidade Federal de Pelotas deseja que cada um possa fazer de 2016 uma oportunidade para construir uma universidade mais humana.

DSTs

O assunto é antigo, mas a necessidade de prevenção é real

_DSC4334Foi numa brincadeira boba que A.B.M., 31 anos, contraiu o vírus HIV/AIDS. Uma colega de trabalho machucou-se. A. tirou a casca de uma ferida que tinha e encostou no ferimento da amiga. “Vamos fazer um pacto de sangue”, disse, aos 20 anos, selando seu destino.

_DSC4268Quando aconteceu, a colega chorou muito. Mas não disse nada. A. não suspeitou, mas menos de um ano depois fez o teste por fazer. O diagnóstico positivo foi difícil de assimilar. “Achei que ia morrer naquela semana”, conta. Depois, começou o questionamento sobre a origem do contágio. “Sempre me cuidei muito, tinha muito medo. Fui inocente. Isso não está escrito no rosto das pessoas”, relembra, referindo-se à amizade que, afinal, havia durado apenas três ou quatro meses.

Hoje, ela tem duas filhas – ambas sem o vírus -, e faz tratamento no Serviço de Atendimento Especializado em AIDS da Universidade Federal de Pelotas (SAE/UFPel). Para ela, o preconceito é uma das barreiras mais complicadas. “Mas de uma coisa tenho certeza: nunca passei para ninguém. Sempre conto. Esconder é uma coisa que não se faz”, disse.

Com o advento da terapia antiretroviral, a qualidade de vida dos portadores do HIV melhorou muito. E, com ela veio, também, a sensação de que “tudo está bem”. Sentimento que pode trazer a falsa ideia de que não há tanta necessidade de preocupação.

De acordo com a médica do SAE, Susane Passos, como a AIDS deixou de ser uma doença determinante em relação à morte e ao tempo de vida, as pessoas passaram a “banalizar” o diagnóstico e relaxaram em relação à prevenção. Segundo ela, o contágio tem crescido muito no público jovem, que não costuma ter a percepção do risco. “Eles acham que isso nunca vai acontecer com eles e naturalmente se expõem mais”, avaliou. De acordo com a médica, há uma incidência grande e crescente na população brasileira de até 24 anos – uma preocupação atual do Ministério da Saúde.

Ao mesmo tempo, alerta, o HIV/AIDS está gradativamente aumentando, no mundo todo, entre os homossexuais masculinos. Como deixaram de ser integrantes de um “grupo de risco” – que os tinha levado a um cuidado redobrado -, diminuíram a preocupação em relação ao contágio.

De acordo com a médica, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais rápido pode-se quebrar a cadeia de transmissão – já que mesmo infectada a pessoa pode ficar um longo tempo sem sintomas e, se não sabe, pode seguir disseminando a doença. Além disso, quanto mais precocemente começa o tratamento, melhores os resultados pelo controle. “Queremos tratar o paciente ainda na fase assintomática. Não conseguimos curar, mas é possível transformar em uma doença ‘crônica’ e aí a qualidade de vida melhora”, pondera.

Segundo ela, mesmo controlada, a inflamação crônica que o HIV provoca deixa o portador mais suscetível a outras doenças. Pessoas portadoras têm mais incidência de câncer e cardiopatias, por exemplo.

Como saber
Em Pelotas, é possível fazer o teste rápido na maioria das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou no Centro de Testagem Anônima, que fica no Centro de Especialidades da Secretaria Municipal de Saúde (na rua Voluntários da Pátria, esquina com a rua Santos Dumont). O resultado fica disponível em até 30 minutos. Se positivo, o paciente é encaminhado ao SAE.

Atualmente, o Serviço Especializado da UFPel atende 4.248 pacientes adultos, que são acompanhados em avaliações clínicas e laboratoriais e recebem medicação. O Serviço funciona desde 1994, nas áreas de clínica adulta, pediátrica e ginecologia e obstetrícia.

Tendência de aumento entre os jovens
– A maior concentração dos casos de AIDS no Brasil está nos indivíduos com idade entre 25 e 39 anos para ambos os sexos; entre os homens, essa faixa etária corresponde a 53,6% e, entre as mulheres, 49,8% do total de casos de 1980 a junho de 2015.

– Quanto à forma de transmissão entre os maiores de 13 anos de idade, prevalece a sexual. Nas mulheres, 86,8% dos casos registrados em 2012 decorreram de relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo HIV. Entre os homens, 43,5% dos casos se deram por relações heterossexuais, 24,5% por relações homossexuais e 7,7% por bissexuais. O restante ocorreu por transmissão sanguínea e vertical.

– A distribuição proporcional dos casos de AIDS do Brasil segundo região mostra uma concentração dos casos nas regiões Sudeste e Sul, correspondendo cada qual a 53,8% e 20,0% do total de casos identificados de 1980 até junho de 2015. A região Sul apresenta 8,6 mil casos ao ano.

– Nos últimos cinco anos, o Brasil tem registrado, anualmente, uma média de 40,6 mil casos de AIDS.

– Entre os homens, observa-se um aumento da taxa de detecção principalmente entre aqueles com 15 a 19 anos, 20 a 24 anos e 60 anos ou mais nos últimos dez anos. Destaca-se o aumento em jovens de 15 a 24 anos, sendo que de 2005 para 2014 a taxa entre aqueles com 15 a 19 anos mais que triplicou (de 2,1 para 6,7 casos por 100 mil habitantes) e entre os de 20 a 24, quase dobrou (de 16,0 para 30,3 casos por 100 mil habitantes).

– No ranking dos 100 municípios com mais de 100 mil habitantes, Pelotas está em 20º lugar.

– Em relação aos jovens, dados do Ministério da Saúde apontam que, embora eles tenham elevado conhecimento sobre prevenção da AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, há tendência de crescimento do HIV.
Dúvidas frequentes
Atualmente, ainda há a distinção entre grupo de risco e grupo de não risco?
Essa distinção não existe mais. No começo da epidemia, pelo fato da AIDS atingir, principalmente, os homens homossexuais, os usuários de drogas injetáveis e os hemofílicos, eles eram, à época, considerados grupos de risco. Atualmente, fala-se em comportamento de risco e não mais em grupo de risco, pois o vírus passou a se espalhar de forma geral, não mais se concentrando apenas nesses grupos específicos. Por exemplo, o número de heterossexuais infectados por HIV tem aumentado proporcionalmente com a epidemia nos últimos anos, principalmente entre mulheres.

O que se considera um comportamento de risco, que possa vir a ocasionar uma infecção pelo vírus da AIDS (HIV)?
Relação sexual (homo ou heterossexual) com pessoa infectada sem o uso de preservativos; compartilhamento de seringas e agulhas, principalmente, no uso de drogas injetáveis; reutilização de objetos perfurocortantes com presença de sangue ou fluidos contaminados pelo HIV.

Qual o tempo de sobrevida de um indivíduo portador do HIV?
Até o começo da década de 1990, a AIDS era considerada uma doença que levava à morte em um prazo relativamente curto. Porém, com o surgimento do coquetel (combinação de medicamentos responsáveis pelo atual tratamento de pacientes HIV positivo) as pessoas infectadas passaram a viver mais. Esse coquetel é capaz de manter a carga viral do sangue baixa, o que diminui os danos causados pelo HIV no organismo e aumenta o tempo de vida da pessoa infectada.

O tempo de sobrevida (ou seja, os anos de vida pós-infecção) é indefinido e varia de indivíduo para indivíduo. Por exemplo, algumas pessoas começaram a usar o coquetel em meados dos anos noventa e ainda hoje gozam de boa saúde. Outras apresentam complicações mais cedo e têm reações adversas aos medicamentos. Há, ainda, casos de pessoas que, mesmo com os remédios, têm infecções oportunistas (infecções que se instalam, aproveitando-se de um momento de fragilidade do sistema de defesa do corpo, o sistema imunológico).

Formas de contágio
Como o HIV, vírus causador da AIDS, está presente no sangue, sêmen, secreção vaginal e leite materno, a doença pode ser transmitida de várias formas:
– Sexo sem camisinha: pode ser vaginal, anal ou oral.
– De mãe infectada para o filho durante a gestação, o parto ou a amamentação – também chamado de transmissão vertical.
– Uso da mesma seringa ou agulha contaminada por mais de uma pessoa.
– Transfusão de sangue contaminado com o HIV.
– Instrumentos que furam ou cortam, não esterilizados.
Evitar a doença não é difícil. Basta usar camisinha em todas as relações sexuais e não compartilhar seringa, agulha e outro objeto cortante com outras pessoas. O preservativo está disponível na rede pública de saúde. Caso não saiba onde retirar a camisinha, ligue para o Disque Saúde (136).

Prevenção
Que cuidados devem ser tomados para garantir que a camisinha masculina seja usada corretamente?
Abrir a embalagem com cuidado – nunca com os dentes ou outros objetos que possam danificá-la. Colocar a camisinha somente quando o pênis estiver ereto. Apertar a ponta da camisinha para retirar todo o ar e depois desenrolar a camisinha até a base do pênis. Se for preciso usar lubrificantes, usar somente aqueles à base de água, evitando vaselina e outros lubrificantes à base de óleo que podem romper o látex. Após a ejaculação, retirar a camisinha com o pênis ainda ereto, fechando com a mão a abertura para evitar que o esperma vaze de dentro da camisinha. Dar um nó no meio da camisinha para depois jogá-la no lixo. Nunca usar a camisinha mais de uma vez. Utilizar somente um preservativo por vez, já que preservativos sobrepostos podem se romper com o atrito.

Além desses cuidados, também é preciso certificar-se de que o produto contenha a identificação completa do fabricante ou do importador. Observe as informações sobre o número do lote e a data de validade e verifique se a embalagem do preservativo traz o símbolo de certificação do INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia), que atesta a qualidade do produto. Não utilize preservativos que estão guardados há muito tempo em locais abafados, como bolsos de calça, carteiras ou porta-luvas de carro, pois ficam mais sujeitos ao rompimento.

O que fazer quando a camisinha estoura?
Sabe-se que a transmissão sexual do HIV está relacionada ao contato da mucosa do pênis com as secreções sexuais e o risco de infecção varia de acordo com diversos fatores, incluindo o tempo de exposição, a quantidade de secreção, a carga viral do parceiro infectado, a presença de outra doença sexualmente transmissível, entre outras causas. Sabendo disso, se a camisinha se rompe durante o ato sexual e há alguma possibilidade de infecção, ainda que pequena (como, por exemplo, parceiro de sorologia desconhecida), deve-se fazer o teste após 30 dias para que a dúvida seja esclarecida.

A ruptura da camisinha implica risco real de infecção pelo HIV. Independentemente do sexo do parceiro, o certo é interromper a relação, realizar uma higienização e iniciar o ato sexual novamente com um novo preservativo. A higiene dos genitais deve ser feita da forma habitual (água e sabão), sendo desnecessário o uso de substâncias químicas, que podem inclusive ferir pele e mucosas, aumentando o risco de contágio pela quebra de barreiras naturais de proteção ao vírus. A presença de lesão nas mucosas genitais, caso signifique uma doença sexualmente transmissível, como a gonorreia, implica um risco adicional, pois a possibilidade de aquisição da AIDS aumenta. Na relação anal, mesmo quando heterossexual, o risco é maior, pois a mucosa anal é mais frágil que a vaginal.

A camisinha é mesmo impermeável ao vírus da AIDS?
A impermeabilidade dos preservativos é um dos fatores que mais preocupam as pessoas. Em um estudo realizado nos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, esticou-se o látex do preservativo, ampliando-o 2 mil vezes ao microscópio eletrônico, e não foi encontrado nenhum poro. Outro estudo examinou as 40 marcas de camisinha mais utilizadas em todo o mundo, ampliando-as 30 mil vezes (nível de ampliação que possibilita a visão do HIV) e nenhuma apresentou poros. Por causa disso, é possível afirmar que a camisinha é impermeável tanto ao vírus da AIDS quanto às doenças sexualmente transmissíveis.

Outras Doenças Sexualmente Transmissíveis
De acordo com o Ministério da Saúde, as DST são consideradas um dos problemas de saúde pública mais comuns em todo o mundo. Em ambos os sexos, elas tornam o organismo mais vulnerável a outras doenças, além de terem relação com a mortalidade materna e infantil. No Brasil, as mais comuns são sífilis, gonorreia, clamídia, herpes genital e HPV. Nenhuma das relações sexuais sem proteção é isenta de risco. É possível estar com uma DST e não apresentar sintomas – muitas pessoas podem se infectar e não ter reações do organismo durante semanas e até anos. Por isso, a única maneira de se prevenir efetivamente é usar camisinha em todas as relações sexuais – independentemente da forma praticada – e procurar regularmente o serviço de saúde para exames de rotina. Se houver exposição de risco (como relação sem preservativo), é preciso procurar um profissional de saúde para receber o atendimento adequado. Independente da forma praticada, o sexo deve ser feito sempre com camisinha.

*Com informações do Ministério da Saúde.

Publicado em 08/04/2016, em Destaque, Notícias.