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“Sobre o dia de hoje”

O dia 8 de Março é importante pelo simples fato de que as mulheres ainda são oprimidas. Quando formos realmente tratadas com respeito e igualdade poderemos transformar o dia de hoje em uma comemoração, onde se possa fazer e receber homenagens. Mas, por enquanto, o dia ainda é um momento para tentar abrir os olhos e sensibilizar aqueles que preferem não saber, por exemplo, que sete de cada dez mulheres serão agredidas ao longo da vida – dados da ONU – e que essas mulheres estão bem próximas de nós.

Sim, precisamos reconhecer que tivemos ao longo de séculos de muita luta conquistas importantes que nos permitiram sair de uma situação de dependência total da figura masculina (dependência econômica, financeira, intelectual, psicológica etc.) para uma maior autonomia de nossas vidas (participamos ativamente do mercado de trabalho, estudamos, nos autorizamos a participar ativamente dos espaços públicos etc.).

No entanto, sabemos que ainda não chegamos nem perto de efetivamente reestruturar o funcionamento da sociedade para que seja igualitária e justa. Para isso, ainda temos um longo caminho pela frente, pois a violência acontece porque ainda vivemos sob o patriarcado, onde a mulher ainda é vista de forma inferiorizada em relação aos homens.

A violência acontece no nosso contexto. Pode ser que aconteça no interior das nossas famílias, com amigas e também no nosso ambiente de trabalho. Precisamos compreender que a violência não possui classe social, etnia e nem nível intelectual, embora possa haver alterações nessas situações. No entanto, seus tentáculos atingem os mais diversos grupos sociais.

No ambiente acadêmico não tem sido diferente. Pesquisa realizada no Brasil e divulgada em dezembro do ano passado revelou a percepção dos jovens e das jovens diante da violência contra as mulheres nas universidades brasileiras e aponta que mais da metade das entrevistadas já foi vítima de machismo.

Realizada entre setembro e outubro de 2015, a pesquisa ouviu 1.823 universitários de ambos os sexos (60% mulheres e 40% homens) em cursos de graduação e pós-­graduação de todo o Brasil.

Considerando diferentes tipos de violência, que vão da agressão física e do estupro à coerção (beijar veteranos ou ingerir bebidas alcoólicas, por exemplo), desqualificação intelectual de alunas ou cantadas ofensivas, a pesquisa aponta um aspecto importante da violência de gênero: mesmo no ambiente universitário, tido por muitas pessoas como mais esclarecido e cenário de mudanças, diversos comportamentos abusivos ainda não são reconhecidos pelos alunos como violentos, pois 35% dos entrevistados afirmaram que não enxergam violência em coagir uma mulher a participar de atividades degradantes como desfiles e leilões, e 27% deles não consideram abuso se a garota estiver alcoolizada, justificando­-se com frases como “se você bebe, você aceita o risco”.

Mesmo entre as alunas, quando questionadas sobre terem sofrido algum tipo de violência de gênero na universidade, apenas 10% responderam que sim no primeiro momento. Mas, uma vez confrontadas com uma lista de comportamentos abusivos – que incluem além de agressões mais evidentes como estupro, a violência psicológica e moral, tal qual ser colocada em rankings de beleza ou sexuais ou ser humilhada com piadas degradantes e sexistas feitas por colegas – a porcentagem de alunas que reconhece ter sido submetida por algumas dessas situações sobe para 67%.

Dessa forma, o 8 de março nos anuncia novos desafios, não apenas para as universidades brasileiras como para a sociedade como um todo, pois precisamos desenvolver cada vez mais mecanismos que combatam efetivamente uma cultura de violência contra a mulher que ainda, mesmo após 10 anos de Lei Maria da Penha, segue naturalizada.

Que este dia reforce nossa luta!

 

Márcia Alves da Silva

Professora da Faculdade de Educação

Coordenadora do Observatório de Gênero e Diversidade da UFPel.

Publicado em 08/03/2016, na categoria Notícias.