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Ação da UFPel propõe reflexão sobre capacitismo

Thaís criou o fanzine como forma de retribuir à UFPel

“Ser PcD está na moda agora!”. “Todo mundo é um pouco autista”. “Você nem parece ser surdo!”. Essas e outras frases, mesmo parecendo “inofensivas”, carregam estereótipos sobre deficiência. E é a partir dessas “provocações” que a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) chama atenção para o tema do capacitismo. Nesta segunda-feira (21), data que marca o Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência, a instituição apresenta um fanzine e variados materiais com a proposta de trazer a reflexão: “como saber se estou sendo capacitista?”.

O capacitismo é a discriminação manifestada por meio de determinados tratamentos, formas de comunicação, práticas e barreiras físicas e arquitetônicas que impedem o pleno exercício da cidadania pelas pessoas com deficiência. O assunto atraiu a atenção da graduanda do curso de Design Gráfico da UFPel Thaís Heckler Ribeiro. Buscando desenvolver um trabalho de conclusão de curso que envolvesse o design para além de sua função como ferramenta estética – mas como agente de transformação social – a estudante iniciou uma pesquisa dentro da Universidade para entender as necessidades do tema.

O trabalho deu origem a um guia anticapacitista – que será publicado em breve – e também uma versão impressa de fácil acesso e divulgação, o que deu origem ao fanzine. Pensado para ser impresso em folha A4, em preto e branco, a publicação tem oito páginas, sendo uma contracapa e uma capa. Apenas com dobraduras e um recorte é possível montar e ele fica num formato de livreto, de bolso. O PDF, já em layout de impressão, está disponível on-line. O material também conta com uma folha de instruções de montagem.

Para a criadora, desenvolver um trabalho destinado a impactar positivamente a comunidade da universidade é a realização de uma vida acadêmica inteira. “Para fazer um bom design não basta um prompt numa IA. É preciso fazer uma pesquisa robusta, entender com quem se fala. O design tem um poder muito grande de conscientizar, de transformar, de incluir pessoas, de gerar uma certa reflexão dos nossos próprios atos, que é isso que esse fanzine tenta trazer: essa autorreflexão. ‘Será que eu também sou capacitista e tenho que mudar?’. O design tem essa potência”, ressalta.

Estudante de licenciatura em Artes Visuais e uma das lideranças do Coletivo PcD, Doenças Raras e Neurodivergências da UFPel, Jenaína Pinto Duarte conta que o capacitismo é presente no dia a dia e aparece de diversas formas. Pessoas que se negam a pensar diferentes materiais pedagógicos, mudar metodologia, dar mais tempo de prova para os alunos e até aquelas que duvidam da capacidade desses estudantes. Há também colegas que fazem bullying, se afastam, não querem conviver e excluem as pessoas com deficiência. “Para mim, se a pessoa chegou até a Universidade, ela tem mérito. Tem o direito de estar naquele espaço, interagir, socializar e, principalmente, tem o direito de aprender. Isso é lei. E lei deve ser cumprida”, destaca.

Política Bem Viver foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consun) em fevereiro

Segundo ela, são muitos os relatos de capacitismo vivenciados dentro e fora da Universidade, de diferentes formas, inclusive na família. “Ainda há um longo caminho pela frente, mas percebo que a UFPel, com a Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade, tem sido pioneira na luta contra o capacitismo com a construção da Política Bem Viver”, diz. O instrumento, lançado em fevereiro deste ano, busca prevenção e combate às diversas violências, e institui fluxos de denúncia, investigação e sanções em casos de racismo, etarismo e violências contra mulheres, pessoas com deficiência e pessoas LGBTQIA+. O documento também norteia o processo de acolhimento às vítimas, que envolve a escuta, a orientação e a validação de suas dores, além de formação e capacitação da comunidade universitária como agente de combate às violências.

Diagnosticada com autismo nível 1 de suporte, TDAH moderado e identificada com Altas Habilidades/superdotação, Jenaína conta que sua trajetória não foi fácil, mas que tem tido uma vivência positiva na UFPel. “Encontrei aqui o apoio que necessitava tanto academicamente quanto pessoal e profissionalmente”, conta. Segundo a estudante, a principal dificuldade que enfrenta diariamente tem relação com a visão estereotipada sobre pessoas que são superdotadas. “Muitas vezes, acham que sabemos tudo, somos super inteligentes, que não temos dificuldades, e frequentemente esquecem que também tenho transtornos e que preciso de adequações. Ou duvidam que eu seja superdotada por ter dificuldades. Eu gostaria que as pessoas lembrassem que sou um ser humano como qualquer outro e que preciso de suporte, independentemente de ser autista nível 1 de suporte e superdotada. Autistas de nível 1, pessoas com dupla excepcionalidade continuam sendo PcD e precisando de suporte”, explica.

Coletivo em reunião com a Coace e a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae) para entrega de kits sensoriais

Acolher e buscar transformações
O Coletivo PcD, Doenças Raras e Neurodivergências da UFPel foi fundado em 2023 e é formado por estudantes e servidores da UFPel. Além de manter um grupo de acolhimento no WhatsApp, onde podem conversar e trocar experiências, o Coletivo também recebe demandas e busca solucionar as questões junto aos setores responsáveis da Universidade. “Lutamos contra todo tipo de preconceito dentro da UFPel”, diz a líder. Nesse intuito, o Coletivo integrou a construção da Política Bem Viver e promoveu atividades voltadas à psicoeducacação, como por exemplo, o desenvolvimento do Manual de Convivência com PcD, Doenças Raras e Neurodivergências (disponível no perfil do grupo no Instagram) e rodas de conversa sobre como tornar experiências e espaços de arte mais acessíveis.

Recentemente, o grupo está realizando o mapeamento dos campi para perceber as principais barreiras enfrentadas e fazendo contato com direções e lideranças acadêmicas para buscar solucionar essas questões.

Coletivo e Coace debatem a implementação de acessibilidade na SIIEPE

Além disso, o Coletivo está trabalhando em parceria com a Coordenação de Acessibilidade (Coace/UFPel) para a criação de eventos voltados para a saúde física e mental da comunidade universitária. A ideia é propor ações que impactem na construção de hábitos saudáveis, como alimentação, hidratação, atividade física, rotina de estudos e também incentivo a atividades que possam servir como hobbies, propiciando momentos de lazer, contribuindo assim para a saúde mental dos estudantes.

De acordo com Jenaína, é preciso pensar não apenas no ingresso, mas nas condições de permanência e especialmente no pertencimento ao grupo, ao espaço da universidade e à sociedade como um todo. “Como você vai permanecer na Universidade se você não tem condições de saúde mental?”, questiona. Uma das lutas do Coletivo é por um auxílio saúde permanente. “Muitos não estão conseguindo estudar porque não têm condições de comprar os remédios de que necessitam. São pessoas que não têm condição econômica, não têm apoio familiar, cujas medicações não são distribuídas via SUS. Essas pessoas precisam ser vistas, ouvidas, e precisam do auxílio para ficar vivas”, alerta.

UFPel anticapacitista
Para a coordenadora de Acessibilidade da UFPel, Renata Rocha da Silva, um dos principais desafios enfrentados hoje pelas pessoas com deficiência é a acessibilidade atitudinal, que tem a ver com o comportamento – a percepção do outro sem preconceitos, estereótipos, estigmas e discriminações. “A atitude para com as pessoas com deficiência precisa mudar. É preciso deixar de ser capacitista”, destaca.

De acordo com a gestora, a UFPel tem se dedicado a elaborar guias, manuais e campanhas, dialogando com os coletivos da Universidade e outras pró-reitorias para questões relacionadas à inclusão e acessibilidade. Um dos pontos de destaque foi a elaboração da Política Bem Viver, que inclui o capacitismo como uma forma de violência. “Construir essa política também pensando nesse aspecto é um marco, um ineditismo da UFPel”, salienta.

Segundo Renata, a UFPel é uma das poucas instituições de ensino superior no país que tem uma Coordenação de Acessibilidade na Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade, o que se reflete em investimento de pessoal e energia para o tema. “Isso veio para fortalecer as questões relacionadas à acessibilidade e inclusão”, diz a coordenadora, aludindo, ainda, à realização de capacitações e formações para docentes, técnicos, terceirizados e estudantes, para informar sobre os direitos das pessoas com deficiência e como realizar a efetiva inclusão na Universidade.

“Temos planejado estratégias para além da sala de aula, porque entendemos que a inclusão e a acessibilidade precisam estar em todos os espaços da Universidade e devem ser respeitadas por todas as pessoas”, pontua. Segundo a gestora, a UFPel segue pensando avanços no segmento, seja aprimorando a política já existente para pessoas com deficiência, seja propondo novas diretrizes e espaços para todas as pessoas, incluindo aquelas que tenham necessidades específicas.