Há 57 (e muitos mais) anos, UFPel muda vidas em seu entorno
No dia 8 de agosto de 1969, era instituída, a partir da unificação de instituições já pré-existentes, a nova Universidade Federal de Pelotas. Esse marco histórico trouxe a consolidação de uma já extensa trajetória de atuação dessas entidades na educação superior da cidade e da região, que teve início ainda no século 19.
Da Escola de Agronomia e Veterinária Eliseu Maciel às Faculdade de Direito, Odontologia e Medicina, passando pelo Conservatório de Música e pela Escola de Belas Artes e, claro, culminando com a reestruturação da Universidade Federal Rural do Rio Grande do Sul, um marco evidente da história da UFPel é a intensa participação da sociedade pelotense em grandes episódios.
Passados 57 anos da estruturação da Universidade Federal de Pelotas, o impacto de suas atividades na região é cada vez mais evidente. Muitas vezes lembrados, os impactos da circulação da comunidade universitária na economia da região são pequenos perto das inúmeras transformações realizadas pelas atividades de ensino, pesquisa, extensão e inovação da UFPel na sociedade que a abraça.
Para celebrar esse aniversário, entre tantos exemplos que poderiam ser trazidos, a equipe da Coordenação de Comunicação Social da Universidade Federal de Pelotas conta três histórias de como as vidas de muitos pelotenses (e brasileiros e cidadãos ao redor do mundo, por que não?) são diretamente impactadas pelo conhecimento e a ciência partilhados no dia-a-dia da nossa instituição.
Impacto que perdurará por gerações
Diariamente, milhares de mamães e papais levam em seus bebês às consultas de puericultura, rotineiras nos dois primeiros anos de vida de toda a criança. Ali, recebem orientações, fundamentais para o seu desenvolvimento de seus filhos e filhas, de pediatras como Larissa Hallal.
Muitas dessas condutas foram desenvolvidas a partir da observação e do acompanhamento de diversas gerações de crianças pelotenses por uma equipe multidisciplinar da Universidade Federal de Pelotas desde 1982: são os estudos das Coortes de Nascimentos desenvolvidas pelo Centro de Pesquisas Epidemiológicas da UFPel.
“Essas pesquisas são referência mundial para nós”, comenta Larissa. O contato com esses conteúdos já ocorreu durante a sua graduação em Medicina, realizada na Universidade Católica de Pelotas e consolidaram-se ao longo de sua formação em Pediatria. Delas, consolidou-se a consciência de que o início da vida de uma criança é uma grande janela de oportunidade para o desenvolvimento de uma pessoa: “Sempre digo para os pais que os efeitos das intervenções nessa fase acompanham a pessoa para toda a vida”.
Tal período é conhecido como os primeiros 1000 dias, que compreende espaço temporal entre a concepção do bebê até aproximadamente seus dois anos. “É um período em que o organismo humano está programando seus mecanismos biológicos”, explica a pediatra. Por isso, estimular uma infância saudável concretiza-se em um melhor desenvolvimento, algo que, segundo ela, irá perdurar para o restante da vida.
A orientação mais conhecida, advinda das pesquisas do Centro de Pesquisas Epidemiológicas, trata do aleitamento materno: a partir das coortes, os investigadores da UFPel determinaram os incontáveis benefícios de crianças que foram alimentadas exclusivamente com leite materno até seus seis meses e mantiveram seu aleitamento, acompanhado de outros alimentos, até os dois anos. Entre as evidências, estão menores riscos de infecção e um nível maior de cognição na idade adulta.
É por isso que, diariamente, Larissa incentiva às mães e aos pais de seus pacientes a manutenção da amamentação, apesar das dificuldades impostas pela vida, das mães que ainda estão inseguras ou indecisas quanto ao aleitamento àquelas precisam voltar ao trabalho: “Buscamos explorar todas as alternativas”.
Ao relatar essa luta em prol da amamentação, que ganha destaque no mês de agosto, Larissa salienta seu orgulho em orientar seus pacientes baseada em uma pesquisa que foi realizada em sua cidade natal. “São pouquíssimos os lugares no mundo que contribuíram tanto para esse conhecimento”, comemora. É um efeito que, segundo ela, já chegou a muitas crianças, adolescentes e adultos e ainda irão chegar a mais pessoas: “São impactos que vão persistir por gerações”.
Somando experiência e criatividade para renovar a rotina
A rotina de 14 anos de sala de aula da professora Taís Rutz Tavares, docente de Artes da Escola Municipal Cecília Meirelles, há alguns anos ganhou um reforço e tanto: uniram-se à ela estudantes da UFPel participantes do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), iniciativa que tem por objetivo proporcionar a estudantes de cursos de licenciatura uma experiência de docência antes da conclusão de sua formação superior.
“Sou suspeita para falar”, resume assim Taís quando questionada sobre esse impacto da chegada dos bolsistas à comunidade escolar em que atua. “Acredito muito na potência do Pibid nas escolas”, continua ela.
O primeiro ponto, talvez mais óbvio, da iniciativa é o de proporcionar a esses alunos e alunas a possibilidade de um contato com a rotina de sala de aula antes de sua formatura. “Eles podem ter contato com a realidade da rotina escolar, chegando mais preparados quando for a sua vez”, comenta Taís.
Porém, a troca entre a professora e os bolsistas que atuam com ela vem trazendo, conforme ela relata, uma construção produtiva para os processos de ensino-aprendizagem desenvolvidos por Taís: “Eles acabam renovando a minha didática”. O intercâmbio é muito rico e possibilita o desenvolvimento de projetos mais criativos, unindo a experiência do professor e as ideias novas dos participantes do programa. “Com eles, me encorajo a fazer o diferente”, salienta.
O resultado é um aprendizado mais potente para as crianças da Cecília Meirelles. “Juntos, conseguimos nos aproximar mais dos alunos em sala de aula”, diz. A criatividade e a energia dos bolsistas também impulsiona a realização de atividades que talvez fossem mais difíceis de serem feitas. Entre os relatos de Taís, está o de uma excursão realizada com os alunos da escola ao centro histórico de Pelotas, que culminaram com uma visita ao Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, onde foram desenvolvidas experiências das crianças com a arte. “Com as limitações da escola pública, talvez não conseguíssemos realizar uma atividade como essa normalmente”, pontua.
Vida que ressoa pela comunidade
Já se passaram mais de 107 anos desde que as salas de aula do Conservatório de Música de Pelotas, uma das instituições de ensino musical mais antigas em atividade no Brasil, recebem pessoas de todas as idades em busca de formação para a música. Entre elas, está, desde 2016, Bruno Klug, atualmente estudante do curso técnico em Eletromecânica no Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (IFSul).
Incentivado por amigos dos pais a aprender um instrumento, ficou sabendo que a instituição oferecia aulas de acordeon. Aceito como bolsista, Bruno iniciou seus estudos quando tinha sete anos. No dia de aula, conforme relata suas lembranças, era trazido pela sua avó, que antes de leva-lo ao Conservatório, o levava para um sorvete.
Porém, o instrumento já havia sido trazido desde a manhã por sua mãe, Ângela, que o levava para o trabalho de ônibus em uma caixa de transporte; de lá, era levado para o local das aulas pela professora de Canto Lírico do Centro de Artes Magali Richter, atual diretora da centenária casa, para quem Ângela trabalhava; foi ela quem sugeriu o Conservatório para que Bruno pudesse fazer as aulas de acordeon. “O Bruno é um menino muito dedicado, tem alma de artista”, comenta ela.
Dez anos depois, a gaita segue sendo uma paixão na vida de Bruno: “Sinto muita alegria quando toco”. Para ele, a música é mais que um hobby, é um lugar também para esfriar a cabeça e descarregar as tensões da vida, embaladas por muita música nativista, a que mais gosta de tocar.
E o Conservatório acabou sendo como uma casa para ele. Ali, ele está todas as quintas-feiras às 18h para a aula, seguida do ensaio do grupo de acordeons, que ocorre logo após. Daí, a música segue o acompanhando por toda a sua rotina. O instrumento aprendido no Conservatório de Música leva mais melodia para os cultos da Igreja Evangélica Luterana Concórdia, nos quais Bruno utiliza seu talento para acompanhar os ritos.
“Quando a música toca a alma de uma pessoa, isso realmente faz a diferença na sua vida e na vida das pessoas por onde ela passa”, diz Magali.
E essa grande retribuição se dá com sua avó. “A paixão dela era ver o Bruno tocar gaita”, conta a mãe. Há algum tempo diagnosticada com um quadro de demência, hoje ela vive em uma clínica. Então, agora é Bruno quem leva o acordeon até a avó: quando a visita, leva o instrumento e toca as melodias que aprendeu graças ao esforço dela. “Sem ela, nada disso seria possível”, pontua.
