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Dia da Visibilidade Trans: celebrando a identidade e expondo as violências invisíveis

Em 31 de março, o mundo celebra o Dia Internacional da Visibilidade Trans, uma data dedicada a reconhecer e valorizar as pessoas trans e suas diversas identidades. Mais do que uma celebração das conquistas e da resistência dessa população, o dia convida à reflexão sobre os desafios persistentes enfrentados por pessoas trans, marcados por exclusão social, violência e negação de direitos fundamentais.

No Brasil, que lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans pelo 16º ano consecutivo, a transfobia assume formas muitas vezes sutis, mas devastadoras. A violência estrutural e o preconceito cotidiano resultam em uma expectativa de vida média de apenas 35 anos, revelando um cenário alarmante e inaceitável.

Violências que atravessam o cotidiano

Entre as violências muitas vezes naturalizadas está a falta de acesso seguro a banheiros públicos. O medo de sofrer agressões físicas ou constrangimentos leva muitas pessoas trans a evitarem o uso de banheiros em locais públicos, o que pode causar sérios problemas de saúde, como infecções urinárias e complicações renais. A inexistência de banheiros neutros em espaços institucionais ou comerciais reforça a exclusão e impõe um sofrimento físico e psicológico diário.

A violência contra pessoas trans não se limita à agressão física. No ambiente escolar, a evasão de estudantes trans e travestis é consequência direta do bullying, da recusa em respeitar o nome social e da ausência de acolhimento por parte da comunidade escolar. Sem acesso à educação, o caminho até o mercado de trabalho formal torna-se quase impossível. Estima-se que uma grande parcela da população trans seja empurrada para a prostituição como forma de sobrevivência, evidenciando a falência de políticas públicas de inclusão.

O sistema de saúde também é um campo de batalha. Profissionais despreparados, desrespeito à identidade de gênero e a dificuldade no acesso a tratamentos hormonais e cirurgias de afirmação de gênero são apenas algumas das barreiras enfrentadas. Muitos planos de saúde se recusam a cobrir procedimentos médicos essenciais, aprofundando a desigualdade no acesso ao cuidado médico.

Além disso, a violência psicológica e institucional tem reflexos trágicos. A taxa de suicídio entre pessoas trans é significativamente mais alta que a média nacional. A rejeição familiar, o isolamento social e a falta de perspectiva de uma vida digna compõem um ciclo de exclusão e sofrimento que precisa ser urgentemente enfrentado.

Vozes que resistem

Para Ícaro Silva, estudante ingressante do curso de Artes Visuais e homem trans, a experiência na UFPel tem sido marcada pelo acolhimento proporcionado por diversas iniciativas. “Sou poeta e tenho um trabalho chamado ‘Corpo Único’. Estou trazendo esse recorte para ampliar a percepção de que não somos um bloco homogêneo e que, antes de uma compreensão de gênero, já pertencíamos a grupos com diversos atravessamentos sociais”, explicou Ícaro.

Ele destaca que, embora a Universidade seja vista como o espaço de educação e crescimento, a evasão de pessoas trans e travestis ocorre desde as séries iniciais, devido a violências sofridas ao longo da vida. “Essas agressões só me fazem pensar que pessoas cis nos percebem trans antes mesmo de nós. Isso poderia ser um facilitador de acesso, mas, em contrapartida, somos constantemente focados e marginalizados pela cisgeneridade”, destacou.

Jerci Cardoso, estudante do curso de Hotelaria e mulher trans, reforça a importância da luta por espaços de pertencimento e reconhecimento. Ela enfatiza que a visibilidade não pode ser apenas simbólica, mas deve refletir um entendimento mais profundo das realidades que as pessoas trans enfrentam todos os dias. “Nós podemos ser muito mais, deixar de sermos apontados e excluídos dos meios. Além de tudo, somos profissionais, somos pessoas capacitadas”, afirmou.

A UFPel e o compromisso com a inclusão

Na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o debate sobre equidade e inclusão de pessoas trans tem gerado avanços importantes, embora ainda haja muitos desafios a serem superados.

Nome Social

Desde 2013, a UFPel reconhece o direito ao uso do nome social em todas as suas instâncias. Segundo a coordenadora de Diversidade e Inclusão da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (PROAFE), Janaize Neves, a Universidade mapeou pelo menos 92 pessoas trans ou travestis na graduação e pós-graduação. “Sabemos que esse número é muito maior. O mapeamento é só uma parte do processo de visibilização e escuta dessas pessoas”, explicou.

Reserva de Vagas

Em 2022, a Universidade implementou uma política pioneira de inclusão, garantindo a reserva de 5% das vagas nos programas de pós-graduação para pessoas travestis e transexuais. Desde então, ao menos 15 estudantes foram beneficiados. Uma proposta para estender essa política aos cursos de graduação está em fase de tramitação, representando mais um passo na luta por equidade e permanência.

Eventos

Em janeiro de 2024, durante a acolhida do semestre letivo, a UFPel realizou o sarau Resistir, lutar e transformar, em celebração ao Dia Nacional da Visibilidade Trans (29/01). O evento, sediado na Casa Oca, reuniu autoridades, estudantes e artistas, promovendo reflexões sobre a presença e a potência da população trans nos espaços universitários.

Suporte acadêmico e psicossocial

A Universidade também tem implementado ações específicas de apoio psicopedagógico, como atendimento psicológico prioritário, em parceria com o curso de Psicologia, parcerias com estagiários de terapia ocupacional e a oferta de monitorias remuneradas para auxiliar estudantes trans que enfrentam dificuldades de aprendizagem. “São tantas violências acumuladas ao longo da vida que, quando chegam à Universidade, essas pessoas carregam feridas que impactam diretamente no desempenho acadêmico. Precisamos cuidar para que elas permaneçam e concluam seus cursos”, afirma Janaize Neves.

Projetos e Pesquisas

Nesse cenário, ganham força projetos e pesquisas que têm as pessoas trans como sujeitos, temas centrais e destinatários das ações. Um projeto relevante é o grupo de estudos “Escritas de Si, Para Si”, em parceria com o Centro de Letras e Comunicação (CLC), um espaço exclusivo para pessoas trans e travestis onde são discutidas experiências, perspectivas de vida e produção acadêmica com foco em suas próprias narrativas. A expectativa é que, em breve, seja publicada uma coletânea com as produções realizadas nos últimos semestres.

Protocolo de combate à violência e transfobia

Para combater a violência e a transfobia dentro da Universidade, a UFPel criou o Grupo de Trabalho LGBTQIA+, que discute maneiras de prevenir e enfrentar a discriminação. A criação desse protocolo é uma resposta direta aos desafios enfrentados por pessoas trans e outras minorias, reforçando o compromisso com a equidade, a justiça social e o acolhimento de todos os corpos e identidades na universidade.

Ambulatório T

O Ambulatório T é um serviço especializado de atendimento à população trans que foi criado no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel). O ambulatório possui uma equipe multidisciplinar formada por endocrinologistas, psiquiatra, psicóloga, assistente social, técnica de enfermagem, enfermeiras e ginecologista, além de receber suporte da Faculdade de Psicologia e de Terapia Ocupacional.

O espaço desempenha um papel importante na promoção da saúde integral e no acolhimento dessa comunidade, oferecendo um ambiente seguro e acessível. Ele tem como objetivo melhorar a qualidade de vida das pessoas trans e garantir que tenham acesso a cuidados de saúde adequados e humanizados. Além disso, o serviço busca superar as barreiras e a falta de apoio que muitos enfrentam ao buscar tratamento médico fora do contexto especializado.

Publicado em 31/03/2025, nas categorias Destaque, Notícias.
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