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Epidemiologia ganha dois prêmios em congresso nacional de atividade física

 
O Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGE) conquistou dois dos três prêmios de melhores trabalhos apresentados no XII Congresso Brasileiro de Atividade Física e Saúde (XII CBFAS), realizado entre os dias 23 e 26 de outubro, na cidade de Bonito (MT). Ao todo, foram 995 trabalhos inscritos, e sessenta selecionados para apresentação oral. Dentre esses, a comissão científica premiou os três melhores.O primeiro lugar ficou com o trabalho “Atividade física objetiva em crianças de 12 meses de idade pertencentes à coorte 2015 (Pelotas)”, de autoria da professora de educação física Luiza Ricardo, e o terceiro lugar, com o trabalho “Efeito da atividade física no sono: um estudo de base populacional”, da também professora de educação física, Andrea Wendt. Os trabalhos são fruto de pesquisas para teses de doutorado – ambas sob orientação do professor Fernando Wehrmeister e coorientação do professor Inácio Crochemore da Silva. 

Trabalho inédito usa acelerômetros para medir atividade física infantil      

“Poucos estudos se voltam para a atividade física em crianças pequenas, e um dos motivos é a noção equivocada de que as crianças são naturalmente ativas”, comenta Luiza Ricardo, autora da tese que mediu a atividade física de crianças participantes da coorte de nascimentos iniciada em 2015 na cidade de Pelotas (RS). 

O estudo descreveu a atividade física de 2,9 mil meninos e meninas de um ano. Durante quatro dias, as crianças usaram pulseiras com acelerômetros – sensores capazes de registrar os movimentos. A pesquisa incluiu a análise dos fatores que tiveram impacto sobre os níveis de atividade física infantil.

De acordo com os resultados, as principais diferenças foram observadas na comparação entre os sexos. Os meninos despenderam mais tempo que as meninas nas categorias de maior intensidade de atividade física, enquanto as meninas despenderam, em média, até dez minutos a mais em categorias de menor intensidade.

“Foi surpreendente que essa diferença comum entre adultos já esteja presente em crianças de um ano”, diz Luiza. Segundo a autora, o resultado gerou debate após a apresentação oral no congresso. “É uma discussão social sobre o que esperamos do comportamento de meninos e meninas desde pequenos. Por exemplo, a questão das roupas. Existe a ideia de que ‘as meninas não podem se sujar, devem ficar mais quietas’, e os meninos parecem ter mais liberdade para se movimentar”, diz Luiza. 

O estudo apontou ainda que crianças com mães que tinham praticado atividade física na gestação apresentaram maiores níveis de movimentação. E os filhos de pais fisicamente mais ativos também tiveram maiores níveis de atividade física, mostrando que atividade física dos pais é importante para gerar um ambiente saudável para a criança. 

Outro aspecto presente nas discussões diz respeito às posturas educativas para ambos os sexos. “Na maioria das escolinhas, não há um profissional para incentivar a movimentação. Estamos dividindo a atenção das crianças, hoje, com tablets e videogames. É importante proporcionar a elas oportunidades para se movimentar ao longo do dia, através de brincadeiras e jogos. Buscar o equilíbrio com os brinquedos eletrônicos”, conclui a autora.

Estudo investigou relação entre atividade física e sono

A tese desenvolvida por Andrea Wendt revela que fazer atividades físicas próximo à hora de dormir pode reduzir o tempo de sono à noite, enquanto praticar atividades pela manhã pode melhorar o tempo de sono.  A pesquisa investigou o efeito da atividade física sobre o sono de dois mil jovens de 22 anos, participantes do estudo de coorte de nascimentos de 1993 em Pelotas (RS). Para medir os níveis de atividade física e o tempo de sono, os pesquisadores pediram aos participantes que usassem pulseiras com acelerômetros durante uma semana. “Com o uso de acelerômetros, podemos saber com precisão quanto tempo os jovens despenderam dormindo e praticando atividades”, afirma Andrea.

Foram cruzados os dados de tempo de sono e níveis de atividade física, considerando três categorias de movimentação: atividades físicas leves, que correspondem aos movimentos do dia a dia, e atividades físicas moderadas e intensas, que correspondem aos exercícios físicos estruturados. Os resultados apontam que fazer qualquer atividade física – leve, moderada ou intensa – após as 20h pode reduzir o tempo de sono e que esse efeito é proporcional à duração da atividade: por exemplo, cada dez minutos de atividade física de qualquer intensidade à noite correspondeu a uma diminuição de dez minutos no tempo de sono. Já as atividades físicas leves realizadas nos turnos da manhã e tarde tiveram um efeito positivo sobre o tempo de sono durante a noite: cada dez minutos de atividade física correspondeu, em média, a um aumento de dois minutos no tempo de sono.

Uma das principais hipóteses para explicar como a atividade física pode melhorar o sono se baseia na regulação de temperatura corporal. O exercício aumenta a temperatura do corpo, e o organismo dispara uma série de mecanismos para diminuir e regular a temperatura. Essa diminuição gradual da temperatura do organismo provoca o sono. “Provavelmente, quando os exercícios são feitos após às 20h – mais próximo do horário de dormir – o ajuste da temperatura corporal ocorre mais tarde, atrasando o início do sono. Como no dia seguinte, em geral, as pessoas têm de acordar no mesmo horário, o tempo de sono fica reduzido”, explica Andrea.

“É importante lembrar que a atividade física é fundamental para a saúde, contribuindo para promover a saúde cardiovascular, controlar o peso e prevenir e tratar doenças crônicas, e que mesmo pequenas quantidades de exercício podem ser benéficas. Quem precisa melhorar o sono, se puder, deve preferir a manhã ou a tarde”, alerta a pesquisadora.

Publicado em 09/12/2019, em Notícias. Marcado com as tags Epidemiologia, Prêmio.