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Pesquisa da UFPel analisa a implantação do complexo de energia eólica no extremo sul da América Latina

Com o aquecimento global e os recursos naturais cada vez mais escassos, a adoção de energias renováveis é cada vez mais necessária. É neste contexto que surge o Complexo Eólico Campos Neutrais instalado no extremo sul da América Latina, nos municípios de Santa Vitória do Palmar e Chuí, entre os anos de 2015 e 2016, tema da tese de doutoramento da pesquisadora Letícia Bauer Nino.

A pesquisa teve como objetivo investigar os impactos da implantação do maior complexo de energia eólica da América Latina na população dos dois municípios localizados no extremo sul do país, na fronteira com o Uruguai. “A população vivenciou um grande desenvolvimento econômico e melhorias na infraestrutura, mas antes disso houve um certo medo com tanta mudança e tantos trabalhadores chegando à região que até então era muito tranquila, sendo distante das grandes cidades”, explica a doutoranda. De acordo com Letícia, ocorreram melhorias nas estradas, diversificação e desenvolvimento da economia, aumentou a segurança nas áreas arrendadas, diminuindo o abigeato, mas também houve reflexos prejudiciais como a insegurança com a chegada de tantos trabalhadores de fora da cidade, calote de aluguéis, dívidas deixadas pelas empreiteiras contradas e até mesmo o que ela chama de filhos da eólica, fruto de relacionamentos que consolidados ainda na instalação das estruturas, época que a região teve mais trabalhadores.

Para analisar todas estas mudanças, a pesquisadora realizou 26 entrevistas com lideranças de sindicatos, autoridades locais, sendo que 16 entrevistas foram feitas com produtores que arrendaram suas terras para a instalação dos geradores. Um dos grandes interesses da pesquisadora era analisar se a instalação dos Parques refletiu na percepção dos produtores sobre os papeis que eles desempenham sendo coadjuvantes em um empreendimento que tem como objetivo a sustentabilidade e as preocupações ambientais. “Poucos deles tem esta consciência, a maioria enfatiza as questões econômicas que envolvem as suas terras, muitos entendem o processo como uma aposentadoria antecipada, tendo em vista que os contratos são de 20 anos, prorrogáveis por mais 20”, analisa.

No período de pesquisa, Letícia teve a oportunidade de fazer o doutorado sanduíche estudando seis meses em Córdoba, no Instituto de Estudios Sociales Avanzados (IESA), período que pode abastecer seu marco teórico com bibliografias sobre as energias renováveis do local e entender como ocorre o processo na Europa. “Lá é muito diferente, os Parques estão em terras pertencentes a grandes empresas e a preocupação com a consolidação das energias renováveis é visível nas estradas, são muitos geradores eólicos e placas fotovoltaicas”, conta.

Em sua tese, Letícia faz um paralelo com o livro Dom Quixote de La Mancha, em que o protagonista transforma a realidade com sua imaginação identificando gigantes no lugar de moinhos de ventos, desejando travar uma batalha contra eles. “Se a chegada dos gigantes aerogeradores, que se enraizaram pelos seus campos até o horizonte, foi inicialmente recebida com estupefato por parte dessa população rural e das comunidades próximas envolvidas, com o passar do tempo todos vão se familiarizando com sua imponente presença, percebendo, ao fim e ao cabo, que as ameaçadoras torres não passavam de modernos moinhos de vento do progresso contra os quais não teria sentido lutar, tal a evidência dos benefícios trazidos para o desenvolvimento regional”, finaliza.

A pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Sistemas de Produção Agrícola Familiar da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel teve orientação do professor Flávio Sacco dos Anjos e coorientação do professor Eduardo Moyano Estrada do IESA-CSIC de Córdoba, Espanha. A defesa da tese de Letícia ocorre nesta sexta-feira (23), às 14h, na sala 2 do DCSA, no Campus Capão do Leão.

 

 

 

Publicado em 22/08/2019, em Notícias.