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Empoderamento feminino tem impacto positivo sobre indicadores de saúde materno-infantil

O empoderamento feminino está associado a melhores indicadores de saúde materno-infantil, segundo estudo do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas. A pesquisa avaliou o impacto do empoderamento de mulheres sobre os níveis de cobertura de intervenções essenciais em saúde reprodutiva, materna, infantil e neonatal em países africanos.

“Nosso estudo mostra que esforços para alcançar a igualdade de gênero e empoderar mulheres e meninas têm resultados positivos sobre a utilização de serviços de saúde no continente africano, especialmente entre as mulheres mais pobres”, afirma a economista Fernanda Ewerling, autora do trabalho desenvolvido em tese de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas, sob orientação do professor Aluísio J. D. Barros.

A pesquisa utilizou dados sobre empoderamento feminino, cobertura de intervenções de saúde e variáveis socioeconômicas, obtidos de inquéritos nacionais da pesquisa Demographic and Health Survey (DHS) em 36 países africanos. As mulheres foram distribuídas em cinco categorias de acordo com o nível de riqueza.

Os pesquisadores mediram a cobertura de serviços com base na média ponderada de oito intervenções essenciais em saúde reprodutiva, materna, infantil e neonatal, entre eles, a demanda por planejamento familiar satisfeita com métodos contraceptivos modernos, atendimento pré-natal e assistência especializada a partos, cobertura de vacinação e manejo de casos de diarreia e de suspeita de pneumonia entre crianças.

Para avaliar o empoderamento feminino, Ewerling e colegas construíram um indicador baseado em inquéritos populacionais, denominado SWPER. O índice reúne quinze questões e possibilita a mensuração de três domínios de empoderamento da mulher – atitude em relação à violência, independência social e tomada de decisão. São considerados o posicionamento das mulheres sobre violência doméstica – como a opinião quanto a “ser justificável” o marido bater na mulher em determinadas situações (como, por exemplo, se a mulher se recusa a ter relações sexuais e se ela queima a comida), a participação da mulher na tomada de decisões no domicílio em relação a gastos, cuidados com a própria saúde, visitas a familiares e amigos, e fatores como trabalho, escolaridade, idade ao casar e ao ter o primeiro filho, acesso à informação e as diferenças de idade e escolaridade em relação ao cônjuge.

Os resultados apontam correlações positivas entre todos os domínios de empoderamento das mulheres e o índice de cobertura de intervenções no país, independentemente do PIB nacional.

A independência social teve o maior impacto: a cada desvio-padrão a mais neste domínio de empoderamento se observou um aumento de 23 pontos percentuais na cobertura de saúde. Nos domínios da atitude em relação à violência e tomada de decisão, um desvio-padrão a mais correspondeu a aumento de 15 pontos percentuais na cobertura de saúde.

“As medidas de independência social incluem fatores como escolaridade, idade ao casar, idade ao primeiro parto, acesso à informação. Essas medidas tangíveis podem estar mais fortemente associadas à cobertura porque refletem mais diretamente a autonomia da mulher do que os itens nos domínios de tomada de decisão e atitude em relação à violência, que refletem mais as normas da família e da comunidade”, comenta Ewerling.

As análises identificaram que os efeitos do empoderamento se modificaram de acordo com o nível de renda apenas quando se considera o domínio da independência social. O empoderamento na independência social esteve associado a um aumento de cobertura quatro vezes maior entre as mulheres mais pobres do que entre as mais ricas.  “Historicamente, as mulheres mais ricas já têm níveis de cobertura mais elevados. O efeito do empoderamento, mesmo que presente, fica menos pronunciado neste grupo”, diz a autora.

Com financiamento da Fundação Bill & Melinda Gates, o trabalho se alinha à cooperação internacional para reduzir as desigualdades de gênero dentro da agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas.

“Dado o seu potencial para promover o crescimento econômico, reduzir a pobreza e alcançar os direitos humanos, o empoderamento das mulheres é um destes Objetivos”, explica Ewerling.

Juntamente com o apelo à mudança nas relações de gênero lançado pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, a autora espera que o estudo contribua para comprovar a importância da questão, que tem sido historicamente negligenciada. “A cobertura universal de saúde nunca será alcançada com metade da população sendo socialmente marginalizada”, conclui.

Publicado em 28/06/2018, em Notícias.